Acesso Restrito a Associados:

Busca no site:
Compartilhe
Notícias

Artigo: Pensar Estrategicamente

Data: 22/06/2015

O Brasil está entre os cinco maiores mercados mundiais de medicamentos, com vendas em ascensão e crescendo a taxas de 12% ao ano, acima da média mundial. O País ainda tem um imenso potencial em função do acesso de novas camadas da população, que vêm aumentando seu poder de compra pela maior redistribuição de renda. Por outro lado, persiste uma enorme pressão junto ao SUS para financiar e aumentar a demanda por medicamentos, oferecendo maior disponibilidade e acesso à população mais carente, principalmente aqueles produtos listados na Rename.

 

O Governo Federal e o Ministério da Saúde têm se esforçado para tentar viabilizar a menor dependência de insumos e medicamentos acabados externos, reduzindo de forma substancial os custos desta política. Também têm tentado proporcionar a inserção do conceito de Parceria para o Desenvolvimento Produtivo (PDP), oferecendo às parcerias público-privadas oportunidades de crescimento importantes inclusive para os Laboratórios Farmacêuticos Oficiais (LFOs). Apesar disso, essas medidas não estão sendo suficientes para atender ao crescimento populacional e ao aumento da faixa etária mais idosa da população.

 

Neste ponto, desejo trazer à tona uma discussão pertinente, que visa abrir um caminho de discussão entre as lideranças do setor industrial farmacêutico, da administração pública, empresariado, fornecedores, distribuidores e todos aqueles que direta e indiretamente reputam os laboratórios oficiais, não só como um patrimônio, mas também como uma importante ferramenta de políticas públicas, que deve ser revista de forma estratégica e não politizada nos apelos de âmbito regional ou interestadual.

 

A maior proximidade dos mercados é uma realidade que ainda não foi explorada pelo governo brasileiro nem pelos LFOs, de forma a aperfeiçoar a produção e o beneficiamento dos insumos, a redução de custos e maximização dos interesses, dentro do papel internacional do País, que ocupa a 23ª posição como exportador de bens e o 31º na venda externa de serviços, além da dimensão dos projetos externos que trazem maior competitividade e produtividade para a economia nacional.

 

Todos os países que fazem parte do Mercosul ou do Pacto Andino, por exemplo, precisam de forma imediata viabilizar suas políticas de produção e compras que envolvem diferentes patologias através dos medicamentos essenciais e que fazem parte de suas cestas de atenção e assistência farmacêutica. Dentro deste cenário, por que não levar às autoridades competentes uma reivindicação que beneficiaria todo o desenvolvimento nacional? Através do estreitamento de relações com Governos do Mercosul e do Pacto Andino, com inclusão dos bancos de fomento internacionais e aí incluindo o BNDES para implantação do Projeto Superindústria.

 

A base desta proposta de trabalho consiste em viabilizar uma parceria de longa duração entre Governos e indústria farmacêutica pública, de modo a criar uma plataforma única de acesso à inovação, com transferência de tecnologia, tanto para atendimento aos programas de Governo, quanto para o mercado externo. Isso ocorreria com a transferência de pesquisadores e especialistas entre os labo­ratórios, a interação entre laboratórios privados e laboratórios públicos de outros países como mecanismo de conhecimento e acú­mulo de capacidade tecnológica de produção, com a geração de novas moléculas, em especial de biofármacos, rota tecnológica em processo de consolidação na indústria farma­cêutica global, sendo todo este trabalho desenvolvido em conformidade com os requisitos regulamentares da US-FDA e EU-EMA. 


A proposição de trabalho estará centrada no estado da arte das tecnologias para o desenvolvimento e fabricação de medicamentos, seus insumos farmacêuticos de origem química e biotecnológica e as matérias primas necessárias à verticalização de toda a cadeia química e bio- farmacêutica de maior densidade tecnológica. Ainda que nenhuma empresa farmacêutica controle uma grande parcela do mercado do conjunto dos medicamentos, quando estes são analisados por especialidades terapêuticas, observa-se que a oferta no mercado relevante está altamente concentrada, com poucas empresas controlando a produção de medicamentos por classe terapêutica. Desse modo, uma das principais características do mercado farmacêutico é a existência de grandes monopólios e oligopólios por classes e subclasses terapêuticas, sendo comuns os casos em que um único laboratório domina mais da metade de um mercado específico.

 

Isso ocorre porque os produtos farmacêuticos são heterogêneos, já que não existem remédios universais, diferenciando-se por classes e subclasses terapêuticas, possuindo uma baixa substituição. Dessa forma o poder de mercado de algumas poucas empresas produtoras de medicamentos é reforçado pelo controle que elas detêm das fontes de matérias primas.

 

Com o aporte financeiro, político e empresarial do BNDES e de outros órgãos de fomento nacionais e internacionais, um novo patamar surgirá. Serão proporcionadas melhores práticas comerciais e de serviços, maior alinhamento com as demandas de políticas publicas e sociais, comprometimento de lideranças elevando a confiança e credibilidade do setor, fazendo com que os LFOs assumam um papel de vanguarda na produção de medicamentos para uso interno e bem como fazendo alianças para desenvolver medicamentos para uso externo.  


Para muito além da simples exportação de medicamentos acabados, esta proposta viabiliza uma grande aliança transnacional que resultará na maior oferta de recursos capazes de promover uma verdadeira transformação na gestão empresarial dos laboratórios oficiais através de programas de intercambio científico e técnico, de educação continuada, do acesso a modernos conceitos e equipamentos de automação industrial e de informatização, compra de equipamentos técnicos, modernização de plantas, introdução de um novo sistema de gestão de estoques e compras em sintonia com as fontes internacionais.

 

Cria-se assim ruptura zero em medicamentos, profissionalizando chão de fábrica, aumentando a produtividade, disponibilizando capital de giro para otimizar o fluxo de caixa e visando uma completa reestruturação político industrial farmacêutica. O esforço desta transformação terá como retorno uma maior inclusão nas decisões estratégias nacionais e internacionais e o aparecimento de um novo modelo de negócios.

 

Esta discussão não se encerra aqui, pelo contrário, ela deseja ser um embrião para o aprofundamento das reais possibilidades que existem tanto no mercado interno quanto no mercado externo de atratividade e potencialidade, para de fato mexer com a estrutura existente atualmente nos LFOs nacionais. Ela deseja também demonstrar aos dirigentes dos diversos órgãos de comando que compõem a infraestrutura da Saúde que um poderoso aliado, advindo de alianças internacionais, é fator de impulso da inovação e gestão, beneficiando em primeiro lugar a população que mais necessita.

 

Portanto, pensar estrategicamente como utilizar os LFOs e os investimentos do programa Profarma devem ser prioritários diante do cenário atual e futuro.

 

Mauro Pacanowski é professor e consultor da Fundação Getúlio Vargas (FGV)

 


(Fonte: Notícias IPD-Farma – 18/06/2015)



Enquete

Associados

ipd-farma
Av. Churchill, 129, Grupo 1101 – Centro - Rio de Janeiro - RJ - CEP 20020-050
Tel: (21) 3077-0800 - Fax: 3077-0812