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Entrevista: “Potencial de pesquisa em cooperação no Brasil é enorme”

Data: 20/02/2015

Instituição internacional voltada à investigação científica de doenças infecciosas, o Institut Pasteur tem longa tradição em pesquisas, iniciadas em Paris há 130 anos. Em seu histórico figuram a primeira vacina contra a raiva – obtida pelo próprio Louis Pasteur, em 1885 – e descobertas que permitiram o controle de doenças como difteria, tétano, tuberculose, poliomielite, gripe, febre amarela e peste epidêmica. O Institut Pasteur também foi a primeira instituição a isolar o vírus HIV.


Constituída por 130 unidades de pesquisa, com cerca de 2.700 pesquisadores, dos quais 600 cientistas visitantes a cada ano, provenientes de 70 países, a instituição – que é privada e sem fins lucrativos – já abrigou dez vencedores do prêmio Nobel.


Atualmente desenvolve pesquisas nas áreas de biologia estrutural e química, biologia do desenvolvimento e células-tronco, biologia celular e infecção, imunologia, infecção e epidemiologia, genoma e genética, microbiologia, micologia, neurociência, parasitas e insetos vetores e virologia.


Além de atuar na França, o Institut Pasteur possui uma rede internacional (Réseau International des Instituts Pasteur ou RIIP), composta por 32 instituições ao redor do mundo.


O diretor internacional do instituto e secretário geral da RIIP, Marc Jouan, visitou o Brasil em dezembro para discutir o potencial da pesquisa cooperativa entre instituições brasileiras e internacionais.


O especialista em doenças infecciosas, que já atuou em instituições de pesquisa na China, nos Estados Unidos e na França, também esteve na sede da FAPESP, em São Paulo. Em entrevista à Agência FAPESP, Jouan falou sobre a RIIP, possibilidades de cooperação e sobre o trabalho do instituto.


Qual o potencial da pesquisa colaborativa entre o Institut Pasteur e instituições de países como o Brasil para o avanço do conhecimento sobre doenças infecciosas?


Marc Jouan: Os avanços na área de saúde nos últimos 100 anos são incríveis, mas os desafios continuam importantes. Quase todas as atividades do Institut Pasteur são feitas em colaboração com equipes de sua rede internacional e de outras instituições ao redor do mundo. No Brasil, o potencial de pesquisa em cooperação é enorme e queremos ampliar as parcerias que já existem. Passamos, atualmente, por uma revolução na pesquisa em ciências da saúde e o savoir-faire dos pesquisadores brasileiros no campo da genômica, da biodiversidade e do impacto das mudanças climáticas sobre a saúde global, bem como o desenvolvimento de redes de ciência, foram claramente impulsionados, por exemplo, por instituições como a FAPESP, em um passado recente. A capacidade para sequenciar facilmente genomas levanta a necessidade de analisar a enorme quantidade de dados gerados, com a ajuda da bioinformática.


Quais os estudos que mais demandam atenção atualmente?


Jouan: Uma descoberta importante é o papel da microbiota intestinal na saúde individual, embora microbiologia, parasitologia, virologia e imunologia continuem como as principais áreas de estudo em nossos institutos. Trabalhamos com os mesmos ideais de Louis Pasteur: pesquisa, saúde pública e formação. Também desenvolvemos estudos sobre doenças não transmissíveis, como câncer e doenças metabólicas, e damos importância especial para programas de neurociência, que precisam ser ampliados, uma vez que representam alguns dos desafios mais importantes em termos de saúde global. Na saúde pública, muitas ações e projetos são desenvolvidos em rede pelo Institut Pasteur, no mundo. Queremos reforçar, por exemplo, o papel do instituto em Dacar, no Senegal, onde se faz um trabalho notável na luta contra o vírus ebola. Outro exemplo é o estudo da resistência aos antibióticos em crianças nos países de baixa renda.


Como é composta a rede internacional do Pasteur ao redor do mundo e como ela funciona?


Jouan: Nossa rede internacional é formada por 32 unidades: seis na África Subsaariana, nove na Ásia Oriental, cinco nas Américas, sete na Europa e cinco no Magrebe e no Irã. Eles são muito diversos, e vários são institutos públicos, que trabalham em parceria com os ministérios da Saúde ou da Ciência. Outros são fundações privadas sem fins lucrativos. Os pontos comuns são a pesquisa, o ensino, a transferência tecnológica e uma rede científica permanente. Isso é feito principalmente com projetos conjuntos, em consórcios de investigação e mobilidade de pesquisadores e estudantes. Um bom exemplo é o projeto que estuda a resistência da malária em 37 países e que começou com uma publicação conjunta na revista Nature, pelo Institut Pasteur do Camboja e o de Paris, sobre a descoberta de um gene (chamado K13) no genoma do parasita, responsável por sua resistência à artemisinina (antibiótico usado no combate à malária).


Qual o papel do Institut Pasteur da França nessa rede internacional?


Jouan: O Institut Pasteur de Paris controla 15 Centros de Referência Nacionais, além dos 47 existentes na França, onde, a cada ano, cerca de 40 alunos da rede fazem treinamento. Também na rede, promovemos anualmente mais de 15 cursos sobre doenças infecciosas, epidemiologia e disciplinas relacionadas. Além disso, criamos vários instrumentos para promover doutorados e pós-doutorados, que queremos fortalecer, em especial com os países sul-americanos.


Como o Brasil se insere nessa rede?


Jouan: O Brasil tem equipes de alta qualidade, estruturas excelentes e apoio político para desenvolver a sua pesquisa com ferramentas inovadoras, embora persistam grandes desafios em termos de saúde pública. Por exemplo, o Institut Pasteur tem desenvolvido programas sobre doenças transmitidas por vetores como o vírus da dengue em conjunto com o Brasil, onde o recente aparecimento do vírus chikungunya é muito preocupante. O perfil epidemiológico do Brasil está mudando, as doenças infecciosas estão diminuindo, enquanto as doenças não transmissíveis aumentam. As instituições estão dispostas a desenvolver maior capacidade científica nessas áreas. Os desafios no Brasil são motivadores, e o Institut Pasteur gostaria de ser uma parte dessa iniciativa.


No Brasil, a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) faz parte dessa rede. Como é esse trabalho de pesquisa conjunta?


Jouan: A Fiocruz faz parte da rede desde 2006, mas temos um acordo desde 2004. Trata-se de um grande parceiro. Temos convites comuns anuais para projetos, o que permitiu reunir equipes para trabalhar em parceria e desenvolver grandes estudos científicos, com o Institut Pasteur de Paris e outros da rede. A Fiocruz participa também de nossas reuniões e de propostas científicas e estratégicas para a rede, em especial na região das Américas. Atualmente, desenvolvemos uma cooperação mais estruturada e esperamos, em breve, desenvolver unidades conjuntas, o que significa uma parceria entre laboratórios, um projeto comum, com mais mobilidade e treinamento. Algumas áreas estudadas são parasitologia, virologia, entomologia, hepatite, epidemiologia, neurociências, genética, desenvolvimento de drogas, imunologia, mas queremos ir ainda mais longe nessa cooperação.


Quais tipos de parceria em pesquisa interessam ao Pasteur e quais tipos de demandas de outras instituições são mais comuns?


Jouan: Estamos interessados no desenvolvimento da ciência de alta qualidade em uma gama muito grande de atividades, desde ações efetivas em saúde pública até áreas inovadoras com o uso de novas tecnologias. Com o Brasil, queremos claramente desenvolver programas com essa última perspectiva e sentimos que há entusiasmo por parte das instituições brasileiras. Buscamos estudos conjuntos, mobilidade da investigação, mas também a implantação de um Institut Pasteur no Brasil. Entre outras demandas de parceiros brasileiros, estão as atividades transversais, com processos de qualidade nos laboratórios, biotérios, valorização da pesquisa, propriedade intelectual e experiência em transferência de tecnologia.


Como o senhor vê, no Brasil, os avanços obtidos nas pesquisas sobre doenças infecciosas?


Jouan: Trabalhos promissores vêm sendo produzidos por pesquisadores brasileiros. Alguns deles estão relacionados com os avanços na pesquisa e desenvolvimento de vacinas humanas, por exemplo, contra o HIV e a leishmaniose visceral ou outras doenças negligenciadas, como dengue e leptospirose. Outra questão de ponta estudada no Brasil é o uso de terapias celulares com células-tronco da medula óssea que podem diminuir a inflamação cardíaca observada na doença de Chagas. Vale a pena notar que programas como os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT) também têm permitido a rápida modernização da ciência no Brasil. Um progresso muito importante foi observado, por exemplo, na formação de recursos humanos e no desenvolvimento de tecnologias inovadoras na medicina assistida por computação científica e em novos medicamentos, utilizando ferramentas de bioinformática estrutural.


E como estão as parcerias do Pasteur com instituições paulistas?


Jouan: Temos uma cooperação de longa duração com a Universidade de São Paulo (USP) e com o Instituto Butantan. E, apesar de ainda não haver acordos formais com essas instituições, várias ações foram desenvolvidas ao longo dos anos. Com a USP, coorganizamos cinco cursos permanentes de alta qualidade em imunologia, além de simpósios, o que contribuiu para a construção de uma elite de pesquisadores brasileiros na disciplina, que hoje lideram vários institutos e departamentos não apenas em São Paulo, mas em outras regiões do Brasil. A cooperação científica é forte nas áreas de imunologia, parasitologia e microbiologia e em pesquisas sobre hepatite, câncer, doenças inflamatórias e degenerativas ou neurociência aplicada. Com o Instituto Butantan, estamos organizando um workshop sobre vacinologia, que será realizado em junho de 2015 e deverá resultar em parceria nessa área. Um bom potencial existe também para o estudo de venenos, especialmente com os institutos da rede em países do norte da África e da Ásia. Como na Fiocruz, os parceiros paulistas compõem uma parceria mais estruturada entre o Institut Pasteur e instituições brasileiras. Tivemos um acordo com a FAPESP, entre 2005 e 2009, e estamos formulando um novo, pois estamos muito impressionados com o apoio dado pela Fundação para a ciência no Estado de São Paulo. Estamos convencidos de que podemos fazer muito juntos.


Há a intenção de ampliar essa rede internacional no Brasil ou na América do Sul?


Jouan: Nas Américas, já existem institutos da rede no Canadá (Institut Armand Frappier), Guadalupe, Guiana Francesa, Uruguai e no Brasil (Fiocruz). Estamos trabalhando para desenvolver atividades de formação com vários países da América Latina, como México, Peru, Colômbia, Argentina e outros. No entanto, o Brasil continua a ser o país onde queremos fortalecer uma parceria estratégica. Nossa cooperação científica com o país está integrada a uma perspectiva regional, especialmente por uma forte colaboração com o Institut Pasteur de Montevidéu e da Guiana Francesa. Gostaríamos também de desenvolver a cooperação na região amazônica, porque é uma área desafiadora em termos de pesquisa científica em saúde e meio ambiente.


 

(Fonte: Agência Fapesp – 19/02/2015)



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