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Desafios do setor farmacêutico

Data: 13/12/2018

O Brasil está longe de ser uma referência em inovação na saúde. Há quem diga que o país levará décadas para alcançar os mesmos patamares de investimento mantidos por economias como China e União Europeia. Segundo cálculos feitos pela Mobilização Empresarial pela Inovação, grupo que reúne líderes de cem grandes empresas para debater iniciativas de apoio à inovação, o país precisará de 34 anos para atingir o nível de investimento da nação asiática e do bloco europeu caso mantenha o ritmo recente de expansão. Hoje, o Brasil investe cerca de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento (P&D), conforme os dados mais recentes divulgados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação [veja tabela], Para se ter uma ideia, a China destina quase 2% do PIB, e a Coreia do Sul, mais de 4%. de acordo com a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos.

 

Potencial para inovar é o que não falta, apontam os especialistas. “Há interesse mundial em que o Brasil se torne um país inovador, por ser um grande mercado farmacêutico e por ter diversidade étnica, etária e climática muito grande”, explica Antônio Britto, presidente-executivo da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma).

 

Entretanto, o Brasil não parece estar preparado para aproveitar as oportunidades. “O país está aquém da sua capacidade e poderia ter um papel muito mais preponderante considerando seu nível de desenvolvimento. O ciclo de vicia dos produtos é curto, e a demanda da população por novas tecnologias tende a ser cada vez mais alta”, lamenta Carlos Goulart, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para Saúde (Abimed).

 

Os entraves para o salto da inovação incluem burocracia e infraestrutura, “Sabemos que a estrutura logística disponível hoje é ineficiente e não atende a demanda do país. Isso, aliado à alta carga tributária resulta na enorme dificuldade em realizar importações no Brasil”, destaca Roberto Mendes, presidente da Thermo Fisher Scientific para a América Latina, empresa de produtos e soluções científicas que acaba de inaugurar, em São Paulo, o Customer Experience Center. um avançado centro de pesquisas em múltiplas áreas.

 

“Precisamos da desburocratização imediata dos processos necessários à produção científica, garantindo mais agilidade na obtenção de patentes e a otimização dos trâmites regulatórios para ensaios clínicos, acabando com redundâncias”, complementa.

 

A morosidade é um dos principais entraves no caso da pesquisa clínica. “Enquanto no Brasil demoramos cerca de um ano para receber a autorização para início de uma pesquisa clínica, na Coreia do Sul esse prazo é de um mês”, exemplifica Ogari Pacheco, presidente do Laboratório Cristália, indústria com o maior número de patentes entre as farmacêuticas brasileiras.

 

Burocracia, infraestrutura deficiente e morosidade nos processos são problemas ciue não afetam apenas o segmento de novos produtos, mas toda a área da saúde. “Num país em que existe uma determinação constitucional de acesso livre e gratuito para todos à saúde, a ausência da inovação acaba forçando o país a importar”, lembra Britto, da Interfarma. De outra forma, ressalta, o país não tem condições de garantir acesso.

 

RAIZ DO PROBLEMA

Para Oscar Porto, vice-presidente da Medtronic Brasil, o entrave principal ainda está na formação acadêmica. “A atitude do brasileiro frente à pesquisa e à inovação é pouco empreendedora. Cabe a Universidades, Governos e Entidades Privadas fomentar esse empreendedorismo inovador.”

 

De acordo com o presidente do Cristália, “a maioria dos profissionais é treinada para produção e controle de qualidade, não para pesquisa e inovação”. Embora a massa produtiva seja muito grande, afirma o executivo, o país produz sempre mais do mesmo. Para que haja medicamentos e outras soluções inovadoras, é preciso ter pesquisadores capacitados e direcionados à inovação. Além disso, é fundamental que a universidade esteja mais aberta à pesquisa aplicada, sem abandonar a pesquisa básica.

 

Nesse sentido, hospitais e indústrias também têm responsabilidades a assumir. “Parte da inovação depende das Universidades, que enfrentam falta de recursos financeiros; parte vem eh Indústria, que enfrenta barreiras regulatórias para sua pesquisa e desenvolvimento no país: e parte importante vem da área Hospitalar”, destaca Porto. “Os Centros de Inovação e Pesquisa das instituições hospitalares precisam assumir um papel de liderança neste investimento. O conhecimento das Boas Práticas de Pesquisa Clínica e a formação de um Comitê de Ética atuante são fundamentais para as instituições de ponta. A maior parte da inovação médica vem de dentro dos hospitais, não das bancadas de laboratório”, complementa.

 

MAIS DIÁLOGO

A ausência de interação atrapalha o avança da inovação no país. “Existe uma falta de entrosamento na saúde que não ocorre em outras áreas. Trata-se de um desafio que precisa ser superado para tornar o setor mais ágil”, destaca Goulart.

 

“É necessário que haja articulação entre governo, universidades e empresas, como se os três fossem um só, trabalhando sem preconceito e sem barreiras”, afirma Britto, da Interfama.

 

Para que a engrenagem ganhe tração, a iniciativa privada precisa estar aberta ao risco, e não apenas esperar incentivos públicos. Em contrapartida, o mínimo que o governo precisa fazer é rever o marco regulatório brasileiro.

 

INICIATIVAS EM CURSO

Se o ambiente brasileiro é pouco favorável à inovação, uma resposta contundente, sugere Roberto Mendes, seria criar mais poios de inovação, ligados a centros universitários e que tenham conexão com a iniciativa privada, a exemplo do que está sendo realizado pela Thermofisher no Chile.

 

Lá, trabalhando em parceria com um laboratório e com parte dos recursos oriundos do órgão de fomento federal chileno (CORFO), conseguiu-se estruturar um projeto de pesquisa que analisará 6 mil amostras genéticas de pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas. “O objetivo é validar a capacidade tecnológica do nosso sequenciador de nova geração Ion PGM (Personal Genoma Machine) de encontrar mutações genéticas associadas ao câncer, como ALK e ROS1. O padrão atual para detecção desses marcadores genéticos faz parte de uma tecnologia mais antiga”, explica Mendes.

 

Por aqui, como forma de ajudar no estímulo à inovação, a Abimed tem atuado mais próxima aos ministérios da Saúde e tio Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic). “Temos sido uma espécie de agente facilitador entre os ministérios e as empresas para fomentar, de alguma maneira, a inovação”, conta Goulart. Em 2014, por exemplo, a associação lançou a campanha “Acelerando a Inovação no Brasil”, um conjunto de iniciativas para estimular o debate sobre inovação no país e ampliar o acesso da população a novas tecnologias médicas. Parte do projeto inclui um estudo encomendado à Fundação Dom Cabral sobre os principais desafios à inovação no país.

 

Lançado em janeiro deste ano pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), vinculado ao Mdic, o projeto “Prioritário BR” visa a acelerar a análise de patentes. O objetivo é garantir que um pedido de patente inovadora depositado originalmente no instituto, mas com depósito equivalente em outro país, receba tratamento prioritário em sua análise. Dependendo da área tecnológica, um pedido cie patente chega a demorar 11 anos para ser analisado. A meta, com o projeto, é reduzir esse prazo para algo entre nove meses e um ano. Atualmente, cerca de 200 mil pedidos de patente estão pendentes, segundo o INPI.

 

MODELO DE INOVAÇÃO NO BRASIL

Enquanto a inovação como um todo caminha a passos lentos, é possível encontrar bons projetos pelo país, como o conceito de cluster (concentrações geográficas de empresas e instituições que, ao cooperarem entre si, tornam-se mais eficientes). O mais recente exemplo vem do Rio Grande do Sul. estado que já começou os preparativos para inaugurar seu cluster de tecnologias para saúde. A ideia é preparar uma plataforma de confiança para start-ups. pequenas e médias empresas, investidores, indústria, pesquisa e sistema de saúde como um todo.

 

“O resultado dessa troca será a criação de novos conhecimentos, mercados, produtos e métodos cie financiamento”, explica Tobias Zobel, diretor-executivo do Medicai Valley Center na Alemanha, cujo plano é desenvolver uma rede de colaboração internacional com o Brasil. Estados Unidos e China. O principal objetivo com o desenvolvimento do cluster é melhorar a qualidade do tratamento de pacientes e contribuir com a redução dos custos de diagnóstico. “O melhor cenário seria uma combinação de ambos”, destaca Zobel. A pesquisa aplicada terá lugar cativo no ambiente. “Nós já estamos negociando detalhes para os primeiros projetos, incluindo parceiros como hospitais, empresas e universidades”, afirma.

 

O conceito de cluster representa justamente o diálogo e a aproximação entre os diferentes atores. “É uma comunidade de interesses, de integração de conhecimentos. Ganha sentido na medida em que é capaz de articular os diferentes saberes em prol de um projeto de desenvolvimento econômico”, define Fábio Leite Gastai, superintendente de estratégia, governança, riscos, produtos e novos negócios da Seguros Unimed e que está diretamente envolvido no cluster do Rio Grande do Sul desde 2013, quando o projeto começou a ser discutido.

 

O desenvolvimento do cluster no RS vai trazer benefícios ao estado. “Além de mobilizar interesses que estavam desarticulados, isso pode servir como motor para a reconversão econômica do estado”, destaca. Na prática, outro grande benefício é aproveitar o potencial das instituições de saúde na região. “A maior parte dos hospitais é capaz de desenvolver uma boa assistência médico-hospitalar. mas a maioria não se vê como centro produtor de conhecimento, ciência e tecnologia. A integração ajudará nesse sentido”, pontua o executivo. Cria-se, então, uma espécie de hélice quádrupla: hospitais, empresas, universidades e governo.

 

Segundo Zobel, a expectativa é que a iniciativa contribua com a força inovadora no país, assim como ocorreu na Alemanha. Lá, o centro é composto por 500 empresas responsáveis por 43% da área de patentes no país europeu.

 

 

 

(Fonte: Panorama Farmacêutico - 12/12/18)



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