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Presidente do CNPq não vê exagero em apoio à pesquisa da ‘pílula do câncer’

Data: 27/11/2015

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) anunciou nesta quinta-feira (26/11) a liberação dos primeiros R$ 2 milhões para pesquisas com fosfoetanolamina sintética, a substância que ficou conhecida como “pílula do câncer”, desenvolvida por um pesquisador do Instituto de Química da USP em São Carlos. Trata-se do primeiro lote, de um total de R$ 10 milhões, que o ministério planeja investir no estudo da “fosfo” até 2017, se os ensaios iniciais mostrarem que ela realmente tem potencial para tratar o câncer.


O anúncio surpreendeu muitos cientistas brasileiros, que questionam a decisão do ministério de criar uma linha de financiamento especial para o estudo de uma substância que só se tornou famosa porque foi distribuída para pacientes de forma irregular pelos seus inventores, durante anos, sem aprovação da Anvisa e sem testes que comprovassem sua eficácia ou segurança para uso humano. Ainda mais no momento em que a ciência brasileira passa por uma forte crise orçamentária, em que projetos de pesquisa muito mais consolidados enfrentam dificuldade para obter recursos.


O presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Hernan Chaimovich, porém, disse em entrevista que “não vê exagero” na decisão do ministério, que tem como objetivo dar uma resposta científica a um “clamor social”. Veja abaixo os destaques da entrevista:


Como justificar a decisão de dar R$ 10 milhões até 2017 para a pesquisa da fosfoetanolamina no momento em que a ciência brasileira passa por uma crise de financiamento generalizada, com cancelamentos e atrasos no pagamento de editais?


Hernan Chaimovich - Estamos falando de muito pouco dinheiro; não estamos falando de uma quantia exagerada. Não é verdade que o CNPq não vem pagando; nós terminamos de pagar todo 2013, pagamos pelo menos metade de 2014, conseguimos suportar uma parte importante dos INCTs que estavam a zero, e isso não é pouco dinheiro. É claro que estamos num momento de aperto. Agora, tem um clamor social que é evidente, tem um problema social que é claro, e temos dados mais do que suficientes, discutidos no Congresso Nacional, que mostram que a sociedade está sensibilizada com um promessa que a gente não sabe se é verdade ou não. Não reconhecer que existe esse clamor social é não reconhecer a realidade.


E qual é a resposta do ministério que trata de ciência, tecnologia e inovação? É fazer ciência; e portanto o ministério toma isso como uma responsabilidade do Executivo perante um clamor social. Não é uma decisão que vem de cima para baixo, é uma resposta de um ministério que tem essa responsabilidade. Insisto que não foi uma decisão do CNPq, foi uma decisão colegiada do MCTI, entre os pesquisadores e o ministério. Mas eu não vejo, de jeito nenhum, como presidente do CNPq, um exagero ou um açodamento da decisão tomada, da forma como foi tomada e como uma resposta a um clamor social que é evidente.


As decisões sobre a fosfoetanolamina estão sendo politizadas, por conta da enorme expectativa que se criou em torno dela na sociedade?


Chaimovich - Se politizar quer dizer dar uma resposta científica a um clamor social, tudo bem, pode ser. Mas não acredito que essa seja a definição de politizar. Todos os resultados serão publicados numa webpage dedicada a isso, toda a sequência de experimentos será publicada, e o assunto será tratado de forma totalmente transparente: quanto dinheiro é investido, onde, para quê e quais os resultados.


O senhor chegou a dar uma olhada nos resultados preliminares já publicados na literatura científica sobre a fosfoetanolamina? O que achou deles?


Chaimovich - São resultados científicos muito interessantes, e eu não tenho nenhuma certeza de que todos esses ensaios foram conduzidos de acordo com as regras da Anvisa para ensaios clínicos. Pelo menos isso não está explicitado nos trabalhos.


São resultados que justificam as expectativas que existem sobre o potencial terapêutico dessa substância?


Chaimovich - Existem pelo menos 10 mil a 20 mil substâncias com potencial. Transformar o potencial numa droga é um caminho. Sem dúvida os resultados são sérios, foram publicados em revistas de altíssimo padrão, e merecem ser lidos.


Mas o que gerou o clamor social não foram os trabalhos científicos; foi o fato de a droga ter sido distribuída para pacientes livremente, em desacordo com a legislação e sem os estudos prévios necessários. Ao investir na continuidade dessas pesquisas, não se corre o risco de incentivar comportamento semelhante por parte de outros pesquisadores, que não queiram se dar ao trabalho de fazer todos os ensaios pré-clínicos necessários?


Chaimovich - Não vou qualificar o que foi feito, mas poderia. Sem dúvida, foi feito ao arrepio das normas. Agora, você não pode dizer que o ministério está fazendo outra coisa se não dizer: Se nós queremos um país sério, onde os procedimentos internacionalmente aceitos são respeitados, esses são os passos que têm de ser seguidos. Eu vejo essa mensagem, e não o contrário.


E se os resultados obtidos com esses primeiros R$ 2 milhões não forem positivos?


Chaimovich - Todo mundo vai ficar sabendo. Não tenho nenhum medo de resultado negativo, pois se todos os resultados fossem positivos não precisaria fazer ciência, teremos apenas certezas e crenças. Então, estamos correndo um risco? Sim, estamos, mas fazer ciência é exatamente isso. Não posso predizer o resultado do experimento — pois se pudesse predizer com 100% de certeza o resultado de um experimento, não vale a pena investir nele.


Sem dúvida, mas minha pergunta é: Se os resultados iniciais não corroborarem as expectativas com relação ao potencial terapêutico, o apoio financeiro ao estudo será descontinuado?


Chaimovich - Não acredito que nos primeiros R$ 2 milhões a gente consiga esses dados tão firmes, mas pode ser. Qualquer previsão que eu faça nesse momento será irresponsável. Portanto, eu não faço previsão nenhuma.



(Fonte: Estadão - 27/11/2015)



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